A pessoa está sempre em processo, sempre em construção dialógica entre seu discurso e o discurso dos outros sobre si. Nesse sentido, a pessoa se torna relativamente livre e independente, pois aquilo que poderia defini-la, “sentenciá-la”, de um ponto de vista externo, passa agora a funcionar como material de sua autoconsciência e mesmo assim, longe de se auto-definir, sente vivamente sua imperfeição interna e sua permanente capacidade de superação.Diante dessa inconclusividade e permanente construção de si mesmo, resta nos compreender que não há possibilidade de aplicar a fôrma de identidade no homem, não há como o homem coincidir consigo mesmo. Por ser na confluência do homem com
ele próprio que se realiza a vida autêntica do indivíduo, apenas mediante um enfoque dialógico essa vida torna-se acessível. É somente através do outro, revelando-se ao outro e com apoio do outro que o homem toma consciência e torna-se si mesmo. O “eu” é uma construção coletiva, os “eus” são autores uns dos outros. Em contrapartida, o afastamento e o isolamento são a causa central da perda de si mesmo. Falar de auto-consciência não se refere ao que ocorre “dentro” do indivíduo,pois o próprio interior está na fronteira, voltado para fora. É no limiar que as consciências se encontram, dialogam, divergem,constroem-se, revelam-se. O próprio ser do homem (tanto interno
quanto externo) é convívio mais profundo. Ser significa conviver. Assim, o homem não tem um território interior soberano,não é auto-suficiente, não existe apenas numa consciência. Dotado de uma consciência essencialmente plural e conflitual, o homem ao ser para o outro, é para si.
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